O morador é também turista!

Museu das Confluencias com Only Lyon

Artigo escrito por Jean-Philippe Perol

Com o turismo mundial caminhando para 1,8 bilhões de turistas internacionais em 2030, e enquanto muitos destinos lutam para atrair mais visitantes, outros têm cada vez mais dificuldades para organizar a coabitação pacífica de centenas de milhares de turistas sazonais com os moradores. Em algumas cidades como Veneza ou Barcelona, as autoridades se preocupam há anos em encontrar uma forma de equilibrar os benefícios econômicos e sociais do turismo com o respeito dos modos de viver e do bem estar dos habitantes. Algumas medidas como o pagamento de uma taxa de entrada ou a exigência de uma reserva de hospedagem chegaram a ser estudadas. Não vigoraram, mas a chegada da AirBnb, e o seu impacto sobre os alugueis, bem como o crescimento da consciência ecológica, aumentaram a urgência de responder as preocupações dos moradores com o "overturismo" em quase todos os grandes destinos.

Na onda do turismo sustentável, o respeito do modo de viver das comunidades bem como a participação dos habitantes ao produto turístico do seu destino viraram imprescindíveis. O morador é hoje ator do turismo da sua terra, contribuindo com a qualidade do atendimento, e deve ser também seu embaixador, divulgando a sua imagem com a força da autenticidade. Fatores chaves da reconciliação com o turismo (e os turistas), essas tendências vão ser completadas e talvez superadas por um outro papel do morador: ser um consumidor reconhecido da oferta turística da sua comunidade. As pesquisas mostram que de 30 a 70% do consumo de turismo de uma região é realizado pelos habitantes do local ou dos arredores, um potencial cada vez mais valorizado pelos responsáveis públicos e os profissionais.
Muitas experiências de promoção do turismo local junta aos próprios moradores já viraram cases de sucesso, seja na França os exemplos de Only Lyon ou do Cap Ferret, no Brasil o de Recife ou de Foz de Iguaçu. Colocando o morador no coração da concepção e da comunicação do seu turismo, esses destinos ajudam hoje a definir os ingredientes de uma boa estratégia para satisfazer os clientes locais e os deixar conscientes e orgulhosos da atratividade turística da sua região. Com esse objetivo, o primeiro passo é sempre de conhecer melhor esse cliente, o seu perfil, as suas motivações, as suas exigências, seja o próprio morador como os seus familiares ou os donos de residências secundarias.

Para convencer os moradores de participar ao turismo local, é preciso adotar uma comunicação especifica, mais regular, com dicas mais específicas e endereços mais atualizados e mais secretos. É o caso de Only Lyon que publica duas vezes por ano um magazine Collector que sugere as novidades e as tendências de restaurantes, espetáculos, eventos ou lojas para seus visitantes e seus habitantes. Para esses últimos, produtos e serviços específicos podem ser necessários, e tarifas exclusivas mais baratas são hoje oferecidas, não somente pelos museus, monumentos e exposições, mas também nos hotéis e nos centros de lazer. Em Quebec, a start-up "M ta région" (Ame a sua região) conseguiu assim alistar mais de 1200 profissionais nessa campanha.
M ta région, incentivendo os moradores a visitar sua região.

O relacionamento dos moradores e dos turistas é também facilitado pelos eventos organizados para essas duas clientelas, uma estratégia seguida com sucesso por muitos hoteleiros, inclusive a Accor com sua "La Nuit by Sofitel". Algumas cadeias hoteleiras, como o Mob Hotel of People integraram essa miscigenação a seu próprio conceito empresarial. Favorecer encontros faz também parte da filosofia de centros de atendimento ao turista bem sucedidos como a loja Mazette, ponto incontornável do vilarejo de Cap Ferret, perto de Bordeaux. Essas experiências múltiplas mostram a evolução das relações entre o morador com o turismo. Antigamente ignorado pelos profissionais, ele é hoje respeitado e procurado não somente como consumidor e embaixador do seu território, mas também como co-criador do seu turismo. O fim do antagonismo?

Esse artigo do Jean-Philippe Pérol, publicado no "Le Blog" do Pérol foi inspirado de um artigo original de Maité Levasseur na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat

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